O 25 de Abril

Imagem do fotógrafo Sérgio Guimarães


Por volta das sete horas, como acontecia todas as manhãs, acordei ao som do despertador. Como era hábito, e ainda estremunhado, os meus passos iam no sentido de espreitar as nossas meninas, a mais pequerrucha no berço, junto à nossa cama, e a mais crescidinha no quarto ao lado. Verificava se tudo
estava bem com elas e entrava na casa de banho para cuidar da higiene. Já liberto da casa de banho,
pronto a cedê-la à MI, dirigi-me à cozinha para orientar o pequeno almoço. Como era hábito, liguei o
rádio. Contrariamente ao que esperava e estava habituado a ouvir - música e notícias -, ouvi apelos à
população de Lisboa para recolher a casa e nela permanecer.

Confuso, sem saber o que se estava a passar, dei conta à MI do que tinha ouvido na rádio e corri para a sala ligar o televisor. Do televisor não vinha qualquer sinal. O controlo da televisão pelo movimento militar, soubemos depois, ainda não se tinha consumado. Logo que a MI saiu da casa de banho, falámos sobre o que fazer perante o que estava a acontecer. Obedecendo aos conselhos que iam sendo dados através da Emissora Nacional, decidimos não sair de casa, para o Ministério, nem levar as nossas meninas ao Colégio.

Ao longo da manhã, à medida que iam saindo os comunicados, tudo começava a ficar mais claro. Estávamos a passar por um acontecimento há muito desejado pela maioria dos portugueses: o fim do regime ditatorial do Estado Novo. Coisa que para nós, que tínhamos nascido e crescido na sua vigência, era difícil de acreditar, pensando mesmo que o regime era eterno! Subsistia, contudo, a dúvida! Qual seria o rumo dos acontecimentos! Um golpe de gente conservadora ou progressista? Com o desenrolar dos acontecimentos a dúvida foi-se dissipando, e ficamos a saber que se tratava de um movimento de militares progressistas, a maioria capitães, que se tinham comprometido, através de eleições livres, colocar nas mãos do povo a decisão de determinar o seu rumo, o seu futuro, as suas vidas.

Entretanto, através dos repórteres da rádio e depois da televisão, começámos a aperceber-nos da forte adesão das pessoas ao Movimento das Forças Armadas (MFA), com manifestações de júbilo e de alegria por todo o lado, particularmente na cidade de Lisboa, nas ruas e praças da Baixa, no Terreiro do Paço, na Rua do Arsenal e junto ao Convento do Carmo, local onde se refugiou o Prof. Marcelo Caetano, Presidente do Conselho, que sucedeu a Salazar.

No limite, amachucadas e privadas dos seus direitos durante tantos anos, a tampa saltou mesmo às pessoas e, do interior de si mesmas, saíam “explosões” e “fogachos” de alegria e contentamento. Comedido, como é o meu timbre, não saí para a rua, mas estava a viver emotiva e intensamente os acontecimentos, empolgando-me ao som das músicas de intervenção do Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, José Barata Moura, Vitorino, Jorge Palma e de outros, que, entretanto, começámos a ouvir.

A par das canções dos referidos compositores/cantores, a canção cantada por Ermelinda Duarte “Somos Livres”, surgia frequentemente na rádio e televisão. A força desta canção, a sua mensagem, um hino à liberdade, tornou-se emblemática, passando a ser cantada e trauteada por adultos e crianças. Esta canção também me empolgava e emocionava e, certamente, a todas as pessoas que irmãmente estavam a viver intensamente o momento e a comungar o mesmo espírito de Igualdade, Fraternidade, Liberdade, bandeiras da Revolução Francesa que, já dava para ver naquele momento, se inseriam no espírito e objetivos do 25 de Abril.

No dia seguinte, dia 26, com a situação um pouco mais clarificada em termos de responsabilidade na condução dos acontecimentos, com a designação da Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General António Spínola, decidimos colocar as nossas meninas no Colégio e apresentámo-nos na Direcção-Geral do Ensino Superior. Logo que chegámos, o ambiente era de muita alegria e contentamento, mas também de muita agitação, com as pessoas a reivindicar e a questionar tudo, em termos político-ideológicos. Umas ligadas a partidos de esquerda e outras, em menor número, às forças de direita e extrema direita. Estas atordoadas e perturbadas pelo embate dos acontecimentos.

À semelhança do que se estava a passar por todo o lado, nos outros organismos do Estado, empresas, fábricas e nos campos, na Direcção-Geral do Ensino Superior os representantes dos trabalhadores foram eleitos e marcavam, orientavam e dinamizavam as reuniões que iam acontecendo, a um ritmo elevado e frenético. Eram debatidos vários assuntos, designadamente, entre outros, o saneamento daqueles que estavam ou tinham estado ligados ao regime acabado de derrubar, aprovação, em casos pontuais, de moções de solidariedade e de apoio à luta pela ocupação dos campos e fábricas que, através dos meios de comunicação social, iam chegando ao conhecimento de todos.

Toda a agitação e luta das forças políticas no exterior da Direcção-Geral tinham ali reflexo. O próprio Diretor-Geral, pressionado pelas decisões nas agitadas reuniões de trabalhadores, andava numa “roda viva” de um lado para o outro, em função do que ia acontecendo. As posições que tomava nem sempre eram as mais razoáveis e sensatas, porventura não consentâneas com a sua própria vontade. Enfim, momentos de extrema dificuldade para o nosso Diretor-Geral, António Manuel Hespanha, digno e saudoso Professor de História Institucional e Política, já falecido, que substituiu, com os acontecimentos do 25 de Abril, o Diretor-Geral do regime, Prof. Alberto Ralha.

Entretanto, decorrido o período designado por “Processo Revolucionário em Curso” (PREC), com a tomada de posse, em 23 de julho de 1976, do I Governo Constitucional do Partido Socialista, tudo se acalmou e foi nomeado Ministro da Educação o Prof. Mário de Sottomayor Cardia e Diretor-Geral do Ensino Superior o Prof. Marçal Grilo.

 

In Vivências Revistadas

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