Confuso,
sem saber o que se estava a passar, dei conta à MI do que tinha ouvido na rádio
e corri para a sala ligar o televisor. Do televisor não vinha qualquer sinal. O
controlo da televisão pelo movimento militar, soubemos depois, ainda não se
tinha consumado. Logo que a MI saiu da casa de banho, falámos sobre o que fazer
perante o que estava a acontecer. Obedecendo aos conselhos que iam sendo dados
através da Emissora Nacional, decidimos não sair de casa, para o Ministério,
nem levar as nossas meninas ao Colégio.
Ao longo
da manhã, à medida que iam saindo os comunicados, tudo começava a ficar mais
claro. Estávamos a passar por um acontecimento há muito desejado pela maioria
dos portugueses: o fim do regime ditatorial do Estado Novo. Coisa que para nós,
que tínhamos nascido e crescido na sua vigência, era difícil de acreditar,
pensando mesmo que o regime era eterno! Subsistia, contudo, a dúvida! Qual
seria o rumo dos acontecimentos! Um golpe de gente conservadora ou
progressista? Com o desenrolar dos acontecimentos a dúvida foi-se dissipando, e
ficamos a saber que se tratava de um movimento de militares progressistas, a
maioria capitães, que se tinham comprometido, através de eleições livres,
colocar nas mãos do povo a decisão de determinar o seu rumo, o seu futuro, as
suas vidas.
Entretanto,
através dos repórteres da rádio e depois da televisão, começámos a
aperceber-nos da forte adesão das pessoas ao Movimento das Forças Armadas
(MFA), com manifestações de júbilo e de alegria por todo o lado, particularmente
na cidade de Lisboa, nas ruas e praças da Baixa, no Terreiro do Paço, na Rua do
Arsenal e junto ao Convento do Carmo, local onde se refugiou o Prof. Marcelo
Caetano, Presidente do Conselho, que sucedeu a Salazar.
No limite,
amachucadas e privadas dos seus direitos durante tantos anos, a tampa saltou
mesmo às pessoas e, do interior de si mesmas, saíam “explosões” e “fogachos” de
alegria e contentamento. Comedido, como é o meu timbre, não saí para a rua, mas
estava a viver emotiva e intensamente os acontecimentos, empolgando-me ao som
das músicas de intervenção do Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco,
Fausto, Adriano Correia de Oliveira, José Barata Moura, Vitorino, Jorge Palma e
de outros, que, entretanto, começámos a ouvir.
A par das
canções dos referidos compositores/cantores, a canção cantada por Ermelinda
Duarte “Somos Livres”, surgia frequentemente na rádio e televisão. A força
desta canção, a sua mensagem, um hino à liberdade, tornou-se emblemática,
passando a ser cantada e trauteada por adultos e crianças. Esta canção também
me empolgava e emocionava e, certamente, a todas as pessoas que irmãmente
estavam a viver intensamente o momento e a comungar o mesmo espírito de
Igualdade, Fraternidade, Liberdade, bandeiras da Revolução Francesa que, já
dava para ver naquele momento, se inseriam no espírito e objetivos do 25 de
Abril.
No
dia seguinte, dia 26, com a situação um pouco mais clarificada em termos de
responsabilidade na condução dos acontecimentos, com a designação da Junta de
Salvação Nacional, presidida pelo General António Spínola, decidimos colocar as
nossas meninas no Colégio e apresentámo-nos na Direcção-Geral do Ensino
Superior. Logo que chegámos, o ambiente era de muita alegria e contentamento,
mas também de muita agitação, com as pessoas a reivindicar e a questionar tudo,
em termos político-ideológicos. Umas ligadas a partidos de esquerda e outras,
em menor número, às forças de direita e extrema direita. Estas atordoadas e
perturbadas pelo embate dos acontecimentos.
À
semelhança do que se estava a passar por todo o lado, nos outros organismos do
Estado, empresas, fábricas e nos campos, na Direcção-Geral do Ensino Superior
os representantes dos trabalhadores foram eleitos e marcavam, orientavam e
dinamizavam as reuniões que iam acontecendo, a um ritmo elevado e frenético.
Eram debatidos vários assuntos, designadamente, entre outros, o saneamento
daqueles que estavam ou tinham estado ligados ao regime acabado de derrubar,
aprovação, em casos pontuais, de moções de solidariedade e de apoio à luta pela
ocupação dos campos e fábricas que, através dos meios de comunicação social,
iam chegando ao conhecimento de todos.
Toda
a agitação e luta das forças políticas no exterior da Direcção-Geral tinham ali
reflexo. O próprio Diretor-Geral, pressionado pelas decisões nas agitadas
reuniões de trabalhadores, andava numa “roda viva” de um lado para o outro, em
função do que ia acontecendo. As posições que tomava nem sempre eram as mais
razoáveis e sensatas, porventura não consentâneas com a sua própria vontade.
Enfim, momentos de extrema dificuldade para o nosso Diretor-Geral, António
Manuel Hespanha, digno e saudoso Professor de História Institucional e
Política, já falecido, que substituiu, com os acontecimentos do 25 de Abril, o
Diretor-Geral do regime, Prof. Alberto Ralha.
Entretanto,
decorrido o período designado por “Processo Revolucionário em Curso” (PREC),
com a tomada de posse, em 23 de julho de 1976, do I Governo Constitucional do
Partido Socialista, tudo se acalmou e foi nomeado Ministro da Educação o Prof.
Mário de Sottomayor Cardia e Diretor-Geral do Ensino Superior o Prof. Marçal
Grilo.
In Vivências Revistadas
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